UMA ANÁLISE SOBRE AS MANCHAS DE ÓLEO NAS PRAIAS DO BRASIL, POR RONALD BUSS DE SOUZA, OCEANÓGRAFO, PESQUISADOR TITULAR DO INSTITUTO NACIONAL DE PESQUISAS ESPACIAIS (INPE)

28 Nov 2019

 

Texto: Ronald Buss de Souza, Oceanógrafo, Pesquisador Titular III, Chefe de Gabinete e Diretor Substituto do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)

 

"Desde o final do mês de agosto desse ano de 2019, o litoral nordeste do Brasil vem sofrendo as consequências do aparecimento de manchas de óleo nas praias. Ao longo desse período, as manchas têm aparecido de forma intermitente, não homogênea, e muitas vezes na forma de pequenos conglomerados, de dimensões tendendo a ser cada vez menores. A área afetada se estende desde o litoral leste do Pará até o litoral norte do Estado do Rio de Janeiro. Muitos ecossistemas costeiros foram atingidos, e as implicações ecológicas disso ainda serão matéria para estudos e consequentes futuras ações mitigatórias. Ao longo dos últimos meses muitas informações desencontradas foram veiculadas na mídia, e houve uma certa demora para que os cientistas e tomadores de decisão pudessem compreender o que estava acontecendo. Primeiramente, diferentemente da grande maioria dos casos de derrame de óleo no mar que já ocorreram no mundo, a área afetada foi de mais de 4000 km de extensão, o que já torna esse episódio singular. Ao mesmo tempo, o óleo não chegou nas praias na forma líquida e na superfície do mar, mas sim transportado na sub superfície em relativamente pequenas quantidades e com datas de chegada diversas e muitas vezes recorrentes nas várias praias.

 

Não faltaram (e, infelizmente ainda não faltam!) as mais diversas hipóteses sobre o caso. Muitas das hipóteses apontaram para navios tanque que poderiam ter cruzado a costa nordestina do Brasil, de maneira legal ou não, trazendo óleo cru em rotas de cabotagem conhecidas pelas autoridades. Chegou-se, em alguns casos, a acusar capitães e operadoras desses navios. Algumas vezes, a evidência para as alegadas “acusações" foi a interpretação de imagens de radar de abertura sintética (SAR) de satélites, disponíveis na internet. A falta de critérios precisos para as análises técnicas dessas imagens, muitas vezes realizadas por laboratórios ou empresas carentes de mão de obra especializada em Oceanografia, tornou algumas notícias, vistas sob a óptica de especialistas, alvo de grandes questionamentos. Tivemos casos típicos de má interpretação das imagens SAR, onde blooms de fitoplâncton, conhecidos por afetar a rugosidade da superfície do mar (e, consequentemente, se apresentarem como falsos alvos para derrames de óleo) serem simplesmente interpretados como óleo. Uma simples conta do volume (área mapeada para o derrame vezes a espessura suposta do mesmo) no caso ilustrado na mídia para esse falso alvo de óleo no mar, mostra que a quantidade derramada não poderia ser ocasionada somente por um navio tanque. Mesmo que o volume estimado de óleo derramado no mar tivesse origem em apenas um navio tanque, a perda monetária associada a uma manobra como essa só poderia ser provável no caso de um naufrágio. Isso jamais seria possível de acontecer com um navio tanque em águas brasileiras sem o conhecimento da autoridade marítima, pois geraria comunicação de socorro e manobras de resgate e salvamento no mar.

 

Ao mesmo tempo, a julgar pelo conhecimento básico que todo o oceanógrafo tem da distribuição e variabilidade espaço-temporal das correntes marinhas ao longo da costa do Brasil, um derrame de óleo no nordeste do país não pode se espalhar por águas dos estados do Ceará, Maranhão e Pará, simplesmente porque a corrente marinha predominante ao largo do talude desses estados é a Corrente Norte do Brasil, que flui para norte. Nos estados do nordeste, o predomínio da circulação é para sul, afetada pela direção da Corrente do Brasil, que é para sul. Um raciocínio lógico, posto que a natureza do óleo encontrado em toda a extensão do litoral afetado é a mesma, é que a origem comum do óleo espalhado em todo o litoral nordeste e norte do Brasil deveria ser em alto mar, atrelada à Corrente Sul Equatorial. Essa corrente marinha se forma a partir da Corrente de Benguela próximo ao sul da África e atravessa o Oceano Atlântico. Quando se aproxima do talude ao largo dos estados de Pernambuco e Rio Grande do Norte, a Corrente Sul Equatorial se bifurca, formando as duas outras correntes marinhas supracitadas.

 

O governo brasileiro instaurou, em setembro desse ano, um Comitê de Crise composto pelo Ministério da Defesa (Marinha do Brasil), IBAMA e Agência Nacional do Petróleo (ANP), para acompanhar este grande incidente de ocorrência dos derrames de óleo em nossas praias. Esse comitê, conhecido como Grupo de Acompanhamento e Avaliação (GAA), é dirigido pelo Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira (IEAPM) e visa coordenar as ações científicas que visam elucidar a origem, volume e consequências desse derrame de óleo na costa do Brasil.

 

O GAA criou sete grupos de trabalho (GTs) sob a coordenação de cientistas renomados de universidades e/ou institutos de pesquisa brasileiros. Cada GT trata de um tema científico de interesse, que varia desde a detecção e o monitoramento do óleo, a capacidade preditiva sobre prováveis novos episódios de chegada do óleo nas praias, a composição e características químicas do óleo, até o impacto da chegada do óleo nos diversos ecossistemas costeiros.

 

Através de um esforço integrado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que dispõe em seus quadros oceanógrafos atuando nas áreas de oceanografia ambiental e costeira, oceanografia por satélites e modelagem numérica dos oceanos e da atmosfera, o GAA passou a receber informações mais precisas e seguras sobre o derrame de óleo. O INPE passou a liderar o GT1 do GAA, focado no tema de Monitoramento e Modelagem. Além do INPE, o GT1 conta com a participação do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (IO-USP), do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande (IO-FURG), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), da Diretoria de Hidrografia da Marinha (DHN), e empresas do ramo do Sensoriamento Remoto e Oceanografia, entre outros.

 

Após cerca de três semanas de trabalho, entre os dias 18 e 20 de novembro, o GT1 Promoveu no INPE uma oficina de trabalho sobre “Sistemas Preditivos de Óleo no Litoral do Brasil”. Nesta oficina, realizada presencialmente ou via videoconferência, participaram mais de 50 pesquisadores e técnicos das universidades, institutos de pesquisa e empresas ligadas ao grupo. Alguns resultados mais prementes da oficina descrevem a região provável da origem do derrame na Corrente Sul Equatorial, incluindo as mais prováveis datas para tal evento. Também se demonstrou que as técnicas atuais de detecção de manchas de óleo por satélites não podem ser empregadas no caso, pelo simples fato de que as manchas não são superficiais e geralmente têm dimensões menores que a resolução espacial das imagens de satélite. Também se demonstrou que, devido à variabilidade espaço-temporal da Corrente do Brasil, o monitoramento e a previsão da presença dos vórtices de mesoescala dessa corrente e suas interações com a circulação de plataforma através do talude são, provavelmente, a chave para a compreensão do porquê o óleo segue aparecendo com maior intermitência em alguns estados do que em outros.

 

Os resultados da oficina de trabalho apontam fortemente para a criação de um sistema de monitoramento ambiental das águas da Zona Econômica Exclusiva (ZEE) do Brasil. Esse sistema, a ser provavelmente coordenado pelo INPE com apoio de empresas, serviria de suporte para a tomada de decisão em ações ambientais e econômicas na nossa ZEE, e contaria com uma base de monitoramento usando imagens de satélite recebidas no INPE e com a infraestrutura de supercomputação do instituto aplicada à modelagem acoplada oceano-atmosfera.

 

O caso da crise do óleo mostrou ao Brasil, de maneira premente, que não somente somos um país extremamente dependente do mar, mas que nossa capacidade de monitorá-lo está aquém do que a sociedade demanda. Como sabemos, o país investe desde 1970 em cursos de graduação em Oceanografia, formando jovens profissionais aptos à essa difícil, porém, recompensadora tarefa de estudar, entender e amar o mar. Existem hoje 14 cursos de graduação em Oceanografia no país, além de inúmeros cursos de pós-graduação em Ciências do Mar e afins. Temos diversas empresas e tecnologias que nos colocam à frente de muitos outros países litorâneos. A Marinha do Brasil, através de um esforço conjunto com vários ministérios e entidades civis, disponibiliza para pesquisas associadas a universidades e institutos os melhores navios oceanográficos existentes dentre os países limitados pelo Oceano Atlântico Sul.

 

É extremamente necessário que o Brasil continue formando recursos humanos na área de oceanografia no mais alto nível, especialmente focados na compreensão dos processos costeiros e de grande escala que afetam o território brasileiro e nossa população. Também devemos ter amplo conhecimento sobre a variabilidade ambiental marinha e as mudanças climáticas, especialmente focados nas ameaças impostas à zona costeira e à economia nacional. Esses recursos humanos não necessariamente devem trabalhar fazendo pesquisa, mas atuar em empresas, entidades públicas das cidades e estados litorâneos, organizações não governamentais e outras instituições, em favor da proteção e desenvolvimento do país. É imprescindível uma formação básica que inclua o conhecimento de técnicas de sensoriamento remoto e modelagem numérica, processamento de grandes quantidades de dados (“big data”) e amplo conhecimento sobre nossos ecossistemas litorâneos.

 

No caso do INPE, a atuação do grupo de Oceanografia com essa formação profissional propiciou a aglutinação de esforços de diversas instituições, oferecendo ao Brasil soluções rápidas e cientificamente embasadas. Somente com respostas precisas, tecnicamente referendadas por várias instituições é que poderemos solucionar o problema. As questões a responder ainda sobre o incidente dizem respeito a: (1) onde e quando ocorreu o vazamento de óleo; (2) esse material estava na forma líquida, na superfície do mar e foi intemperizado ou já foi ejetado de um navio na forma de piche; (3) quais os caminhos e agentes físicos que promovem a chegada do material nas praias vindo da região do talude; (4) há ainda óleo no mar, onde e como pode ser detectado?

 

Algumas respostas a isso estão sendo buscadas. Uma das descobertas mais importantes é que, uma vez que o óleo vem sendo carregado por correntes de contorno oeste que não transportam águas sobre a plataforma continental brasileira (a Corrente Norte do Brasil e a Corrente do Brasil), a medida e a modelagem numérica preditiva das estruturas de mesoescala, como vórtices e meandros dessas correntes, deve ser realizada. Até agora o GT1 apresentou resultados importantes, mostrando mapas de correntes superficiais e sub superficiais oriundos de dados de satélite e de modelagem numérica. Notamos que existe uma relação de causa e consequência entre os locais de aparecimento das manchas de óleo e a variabilidade espacial e temporal das correntes marinhas, ondas e ventos. Os dados oceanográficos de satélites e modelos produzidos pelo GT1 estão sendo utilizados pela Marinha do Brasil para dirigir, nesse momento, o Navio de Pesquisa Hidroceanográfico Vital de Oliveira para as áreas na costa brasileira onde se supõe que ainda pode haver óleo. Nestas áreas, acaso encontre-se óleo, devem representar a chave para compreender e mitigar os efeitos desse incidente antes que mais danos possam impactar o nosso ambiente costeiro."

 

 

 

 

 

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